Bourbon, Catuaí e Geisha: O Guia das Variedades de Café
Como a genética das plantas de café define o sabor, a doçura e a complexidade do que você bebe todos os dias.
Por Equipe Lazo Café · 21 de julho de 2026 · 6 min de leitura

Para quem está começando a mergulhar no universo dos cafés de especialidade, a primeira grande revelação costuma ser que nem todo café tem "gosto de café". Assim como no mundo dos vinhos a uva determina o perfil sensorial da bebida, no universo do café a variedade botânica é um dos pilares fundamentais do sabor.
No Lazo, acreditamos que entender a linhagem do grão é como olhar para o mapa de um pequeno asteroide: você passa a compreender por que aquela planta se comporta de tal forma sob a luz do sol e como ela transforma os nutrientes do solo em doçura ou acidez. Hoje, vamos explorar três protagonistas que moldam a nossa percepção sobre o que é uma xícara perfeita: o clássico Bourbon, o resiliente Catuaí e o icônico Geisha.
A Árvore Genealógica: Por que a Variedade Importa?
Antes de detalharmos cada uma, é preciso situar onde estamos. Todo o café de especialidade que consumimos pertence à espécie Coffea arabica. No entanto, dentro dessa espécie, existem centenas de variedades e cultivares.
A genética da planta dita os limites do seu potencial. Ela define a concentração de açúcares, a estrutura dos ácidos orgânicos e a densidade dos grãos. Embora o terroir (clima, solo, altitude) e o processamento (natural, lavado, fermentado) influenciem o resultado final, a variedade é o código genético que estabelece a personalidade do café.
1. Bourbon: A Elegância da Doçura Clássica
O Bourbon é uma das variedades mais fundamentais da história do café. Originário da Ilha de Bourbon (atual Reunião), ele é resultado de uma mutação natural do Typica. Para muitos especialistas da Specialty Coffee Association (SCA), o Bourbon é o padrão ouro quando falamos em equilíbrio.
Perfil Sensorial
Se você busca uma xícara que abraça o paladar, o Bourbon é a escolha certa. Ele é conhecido por uma doçura intensa, frequentemente associada ao caramelo, chocolate ao leite e baunilha. Sua acidez é presente, porém suave e cítrica, lembrando laranjas doces.
- Corpo: Sedoso e aveludado.
- Destaque: Alta concentração de sacarose, o que facilita a caramelização durante a torra.
- Variações: Existem o Bourbon Amarelo e o Vermelho. O Amarelo, muito comum nas montanhas brasileiras, tende a ser ligeiramente mais doce e com corpo mais equilibrado.
2. Catuaí: O Coração das Fazendas Brasileiras
Desenvolvido pelo Instituto Agronômico de Campinas (IAC), o Catuaí é um marco da cafeicultura nacional. Seu nome, de origem tupi-guarani, significa "muito bom", e não é para menos. Ele nasceu do cruzamento entre as variedades Mundo Novo e Caturra.
O Catuaí é a prova de que produtividade e qualidade podem andar juntas. Por ser uma planta de porte baixo, facilita a colheita e é mais resistente aos ventos, o que o torna favorito em diversas regiões do Brasil.
Perfil Sensorial
O Catuaí é versátil. Ele absorve muito bem as características do terroir onde é plantado. Em altitudes elevadas e com colheita seletiva, ele entrega uma xícara limpa e muito prazerosa.
- Notas comuns: Nozes, castanhas, chocolate amargo e frutas amarelas.
- Aparência: Grãos geralmente uniformes, o que permite uma torra muito homogênea.
- Por que amamos: É o café do dia a dia elevado ao status de especialidade. É confiável, equilibrado e possui uma finalização limpa.
3. Geisha: A Poesia em Forma de Grão
Se o Bourbon é a tradição e o Catuaí é a força, o Geisha é o misticismo. Originária da região de Gesha, na Etiópia, esta variedade ganhou fama mundial após ser redescoberta no Panamá no início dos anos 2000. Hoje, é frequentemente o café que atinge as maiores pontuações em competições ao redor do globo.
Cultivar o Geisha é um desafio. A planta é sensível, exige altitudes elevadas e um cuidado quase cerimonial. Mas o resultado na xícara é algo que desafia a definição comum de café.
Perfil Sensorial
Beber um Geisha é mais próximo de beber um chá de flores aromático ou um suco de frutas frescas. Ele é conhecido internacionalmente pelo seu caráter "floral e límpido".
- Notas aromáticas: Jasmim, bergamota, pêssego, lichia e capim-limão.
- Acidez: Cítrica, brilhante e refrescante, como uma limonada suíça ou uma fruta cítrica complexa.
- Impacto: É um café complexo, que muda conforme a temperatura da xícara diminui, revelando camadas de sabores.
Resumo das Diferenças
| Característica | Bourbon | Catuaí | Geisha |
|---|---|---|---|
| Doçura | Muito Alta (Caramelo) | Média/Alta (Mel/Nuts) | Delicada (Frutada) |
| Acidez | Cítrica Equilibrada | Médica Fosfórica | Alta e Brilhante |
| Corpo | Aveludado | Médio | Leve e Elegante |
| Principais Notas | Chocolate, Caramelo | Nozes, Chocolate | Flores, Frutas Tropicais |
O Papel do Produtor e da Torra
É importante lembrar que uma genética incrível não sobrevive a uma manipulação ruim. O produtor precisa nutrir a planta adequadamente e escolher o momento exato da colheita (o "ponto cereja").
No Lazo, o nosso papel como mestres de torra é respeitar a história de cada grão. Um Geisha, por exemplo, nunca receberá uma torra escura, pois isso destruiria as notas florais delicadas que o tornam especial. Já um Bourbon nos permite explorar um pouco mais a caramelização para acentuar aquele conforto de chocolate que tanto amamos.
Dicas do Lazo
Para aproveitar ao máximo essas variedades, aqui estão alguns conselhos do nosso pequeno asteroide:
- Comece pelo Bourbon se você ama leite: Devido às notas de chocolate e caramelo, o Bourbon é a base perfeita para cappuccinos e lattes.
- Prove o Geisha sem pressa: Se tiver a oportunidade de degustar um Geisha, faça-o filtrado e sem pressa. Não adicione açúcar, ou você perderá toda a complexidade floral que torna este café único.
- Atenção à Temperatura: Note como o Catuaí se torna mais doce à medida que esfria. O café especial é uma bebida viva; o sabor que você sente no primeiro gole não é o mesmo do último.
- Leia o rótulo: No Lazo, sempre indicamos a variedade na embalagem. Tente comprar variedades diferentes para compará-las lado a lado (um "cupping" caseiro). Verá que a diferença é tão clara quanto o dia e a noite.
A diversidade das variedades de café é o que torna nossa jornada tão fascinante. Cada grão conta uma história de adaptação, biologia e sabor. Qual será a sua próxima descoberta? Sugerimos começar por aquela que mais despertou sua curiosidade hoje. Boas xícaras!
Gostou? Compartilhe

